Uma leitura de Cinco Esquinas, livro de Vargas Llosa

Livro Cinco EsquinasSeis horas de espera entre um voo e outro me fizeram passar no stand de revistas e livros para ver se encontrava algo que me agradasse. O último escrito de Mario Vargas Llosa – Cinco Esquinas – estava em exposição e os comentários do autor na contracapa me fizeram comprar o livro: “essas dos caras del periodismo son uno de los temas centrales de Cinco esquinas”, dizia ele.

Mario Vargas Llosa é o autor peruano mais conhecido internacionalmente e hoje com 80 anos está ele mesmo no noticiário de celebridades, depois de romper um casamento de 50 anos no ano passado e estar de união com Isabel Preysler, uma estrela no mundo do entretenimento e ex-mulher de Julio Iglesias. A senhora que me vendeu o livro disse que não se fala de outra coisa no mundo das revistas de fofocas, ainda mais porque a noiva de Vargas Llosa é jovem e bonita e ele famoso e idoso.

O enredo de Cinco Esquinas se passa em Lima, Peru, cidade que eu havia passado três dias a trabalho. O enredo também começa no início do inverno, mesma época em que eu estivera lá, e fala de bairros por onde passei ao fazer o trajeto de ônibus entre hotel e trabalho. Além disso, abordava a prática do jornalismo sensacionalista (periodismo amarillo, para os latino-americanos). Não podia dar outra, as horas de espera se converteram em horas de leitura, e me diverti, me emocionei, senti raiva e me surpreendi ao longo das 314 páginas em um espanhol suave de ler.

Testemunhei Lima no inverno como descreve Vargas Llosa (p. 77). Tudo é sempre cinza, cor de burro.

y cuando salieron a la calle se encontró con uno de esos días grises, color panza de burro, del invierno limeño

E o trânsito mais cinzento ainda, pois se perde duas horas pela manhã e duas horas no final da tarde dentro de ônibus lotados e lentidão de 10km por hora nas pistas para ir de um ponto a outro. Lima é uma capital com 10 milhões de habitantes e espelha todas as contradições de um país rico que não divide igualmente a sua riqueza entre seus cidadãos. O movimento terrorista Sendero Luminoso e o MRTA (Movimento Revolucionário Tupac Amaru) aparecem no livro de Vargas Llosa como ameaça à segurança dos ricos por conta dos sequestros e o contratempo de viver sob o toque de recolher. Tal tempo ainda é lembrança para o motorista de táxi que me levou ao aeroporto. Ele, por amor a sua esposa, com quem está casado há 42 anos, não se quis ir do Peru quando todos os amigos emigraram para o mundo, por conta dos 10 anos de ditatura (1990 – 2000) de Alberto Fujimori e o terrorismo do Sendero. O taxista diz não se arrepender de ter ficado, mas expressa haver passado maus bocados, ao comentar que um de seus amigos está no Brasil onde criou família e uma vida.

O novo livro deve mesmo estar fazendo muito sucesso. Erotismo e sexo são elementos de venda certeira. E Vargas Llosa (foto: Impacto Latino) não poupa detalhes ao contar a história paralela das amigas casadas que mantém relações sexuais, que evolui para um ménage à trois com o marido de uma delas e por fim termina com os dois casais envolvidos em sexo grupal. No meio disso, o escândalo da noite de orgia do marido engenheiro, dono de minas de ouro e cobre, coisas que não faltam ao Peru, maior produtor de minério da América Latina.

Mas o coração do livro é o poder da informação e a ética utilitarista. O jornalismo é apenas o canal por onde esses tópicos fluem. Usado para o “mal” – amarillismo – ou usado para o “bem” – denúncia, o jornalismo do livro se vê às voltas com esses papéis como se pudesse ser algo desinteressado ou desconectado de quem o exerce e o contexto de sua prática. No livro, o pano de fundo é a “compra da prensa chica” pelo braço direito de Fujimori, o advogado Vladimiro Montesinos, acusado e condenado por assassinatos e subornos denunciados em vídeos e gravações. No centro do enredo, um tabloide de fofocas e a personagem – Julieta Leguizamón, cujo apelido é Retaquita – jornalista que faz a vida publicando o que investiga de desvios pessoais de figurões do Estado peruano no jornal Destapes (Revelações, seria uma boa tradução). Sejam desvios pessoais em relação a sexo, jogo e pornografia sejam desvios pessoais de corrupção, desmandos e assassinatos.

Assim, a personagem jornalista Retaquita utiliza os elementos da prática profissional: pauta, apuração, fontes, gravações, anotações, telefonemas, fotografias, investigação com gravação secreta para sobreviver. Literalmente, sobreviver. Seja pelo salário e os recursos financeiros que ganha ao trabalhar no tabloide Destapes, o que lhe permite alugar casa na periferia e depois num bairro nobre, seja para não perder a própria vida quando expõe o suborno e o assassinato do ex-dono do tabloide pelo El Doctor, o braço direito e chefe do Serviço de Inteligência da ditadura. Na edição extra do tabloide com a denúncia do assassinato e do suborno do ex-dono (Rolando Garro), a então nova diretora, jornalista Julieta Leguizamón, justifica a denúncia baseada em 37 fitas gravadas de suas conversas pessoais com El Doctor entregues à Justiça, dizendo (pag. 290):

Por qué aceptó Rolando Garro, como tantos otros colegas periodistas, recibir estipendios de las manos manchadas de sangre del hombre fuerte del régimen de Fujimori? Por una razón evidente y tan clarísima como dolorosa: la necesidad de la supervivencia. Sin la ayuda económica del régimen, a través de su Servicio de Inteligencia, al igual que Destapes muchas otras publicaciones periodísticas hubieran desaparecido por la absoluta falta de avisos, pesa a contar algunas de ellas, como la nuestra, con el favor del público.

Esses personagens ganharam dinheiro, fizeram fama, executaram o que lhe mandavam, bagunçaram vidas de mocinhos e bandidos e deram de ombros para a ética. No livro, ela não é discutida. Vale?

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