O bendito dia em que fizemos contato…

thaina-salviatoPor Thainá Salviato *

De acordo com o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope), o Brasil conta com mais de 46 milhões de usuários de redes sociais. Os números apenas confirmam o acelerado crescimento do acesso à internet, fixa e móvel, apesar de muitos brasileiros ainda estarem às margens do desenvolvimento socioeconômico e da inclusão digital.

Mas, aqui entre nós, brasileiros médios com acesso às maravilhas do fio óptico, os smartphones já se tornaram quase extensão do corpo e sair de casa sem eles, por exemplo, causa pânico e sensação de vazio a muita gente.

Ações simples do dia a dia, como um simples bom dia ao acordar, foram transportadas para as redes sociais e a primeira ação do dia de quase todos os interligados é checar a timeline. Tudo muito bom, tudo muito bem, se esses hábitos virtuais não estivessem começando a tomar proporções preocupantes na rotina das pessoas, além de prejudicar as relações interpessoais e causar sentimentos nada agradáveis como ansiedade, insegurança e pânico.

Pode parecer exagero, mas não é! Podemos começar com o exemplo simples dos bares e restaurantes, onde as pessoas não mais se olham no olhos e batem aquele papo baseado na famosa filosofia barata de boteco, mas, sim, estão sempre atentas às polegadas do celular e mais preocupadas em postar fotos e fazer check-in.

O “zap zap” já é artigo de série (como assim, vc não tem WhatsApp?) e, apesar de bastante útil até para as atividades do trabalho, anda precisando de um código de ética e bom senso para muitos dos usuários (nas mensagens de áudio então, nem vou falar nada…).

Mas o que anda me preocupando mesmo é o Facebook e o Instagram. Com a febre dos blogueiros, dos publiposts e dos perfis de lifestyle, a difícil tarefa de não se deixar afetar pelas “pessoas com vidas e corpos perfeitos” está praticamente impossível.

Designed by Creativeart - Freepik.com

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O mal deste século se traduz na depressão e nos transtornos de ansiedade, compulsão e pânico, e eu tenho a impressão de que as redes sociais têm uma significativa influência nesse quadro.

E não é achismo não, é experiência própria e observação de histórias de amigos e amigas muito próximos que caíram no tarja preta por conta do eterno sentimento de frustração diante da “sua” incompetência para conquistar essa vida maravilhosa.

Acordar todos os dias e ser bombardeado com fotos de pessoas saradas, estilosas e que ganham dinheiro com seus posts de looks do dia e rotina fitness faz a gente se sentir o cocô do pé de pano (aquele cavalinho simpático do desenho animado). A necessidade de ter aquelas roupas, aqueles corpos (conseguidos com muito sangue, suor, lágrimas, filtros e photoshop) e aquela vida de milhões de seguidores e muitos reais caindo na conta sem as 8h diárias de escritório gera ansiedade, frustração, depressão e distúrbios de imagem.

E como diria Mão Santa, atentai bem: se eu, no auge dos meus 30 anos, não consigo lidar com tudo isso, mesmo com a indispensável ajuda da minha terapeuta, imagine os adolescentes e as crianças que já nascem sabendo desbloquear o iPhone 7?!

Se criar filhos no tempo da zoeira da escola – em que querer uma roupa da Pakalolo, aquela que teoricamente todo mundo tinha, era impossível, mas a mãe resolvia com um simples “você não é todo mundo” – já era muito difícil, na era da fogueira das vaidades e futilidades virtual eu diria que se tornou inviável.

E essa estrada é de mão dupla! Os youtubers são um bom exemplo disso: sempre muito jovens, às vezes ainda crianças, eles fazem um sucesso estrondoso e meteórico, arrastam multidões histéricas e se vêem famosos e milionários de uma hora pra outra. Cultura pop, cinema, arte, música e Chiquititas? Isso é coisa de outro século, do meu século…

Até pensei em parar por aqui, mas é impossível falar de redes sociais sem passar por esses episódios dos últimos meses no cenário político nacional que desencadearam verdadeiras batalhas na ágora virtual. A internet tem esse poder também: deixa todo mundo engajado, “bem informado” e, o mais importante, CORAJOSO! Agredir, xingar, escrever textão e fingir ser e pensar de acordo com a corrente que parece mais popular é o real trending topic!

Eu não sei vocês, mas eu, como profissional da comunicação que sou e pessoa comum e perdida no meio dessa loucura (o que sou ainda mais…) estou severamente preocupada com tudo isso. Aonde vai parar a nossa sanidade mental? Aceito sugestões, teorias otimistas e dados científicos que apontem o caminho da luz…

*Jornalista especialista em Comunicação Pública

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Cobertura presidencial norte-americana, um chamado para os fundamentos do jornalismo

Estou acompanhando o movimento de jornalistas e de veículos norte-americanos sobre como cobrir o presidente eleito e a cada dia fica mais interessante. Humor (assista ao vídeo a seguir) e intensa produção sobre o Jornalismo e os modos de produção da notícia são divulgados diariamente por intermédio de artigos, ensaios, entrevistas, talk show, podcasts, reportagens sobre os malefícios e a popularidade de Silvio Berlusconi na Itália, e sobre os ganhos indiretos da indústria da construção e imóveis na Índia a partir dos negócios do presidente e seus filhos. Para lidar com o azedume, departamento de documentários e vídeos do New York Times reuniu colaboradores internacionais em países que convivem com governantes populistas para transmitir as dicas de uma boa cobertura. E há humor, muito bom humor!

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Para além do humor, a discussão entre os jornalistas e a tomada de posição de diretores de redação e editores-chefes vem ganhando cada vez mais espaço na agenda pública. Muita coisa está em jogo. O presidente eleito tem seu nome como branding, negócios internacionais em larga extensão, comunica-se diretamente com seus seguidores pelo Twitter, não fala com a mídia e a acusa de incompetente, afaga ou castiga aqueles que contam histórias favoráveis ou desfavoráveis sobre o que faz, bloqueando a conta do Twitter ou negando acesso à informação e cobertura. Tudo ao prazer da vontade pessoal!

Para os jornalistas norte-americanos e correspondentes não será fácil cobrir um presidente que tem o site Breitbart News como instrumento de propaganda e o editor-chefe Stephen Kevin Bannon (Steve Bannon, como é conhecido) como o estrategista chefe da Casa Branca. A História está recheada de homens públicos que tiveram suas agências de notícias próprias e esse novo braço da Casa Branca só retrata o tempo em que vivemos – populismo e mundo digital.

Posicionamento – Jornalistas e veículos norte-americanos estão se posicionando e começam a deixar de lado o que o presidente diz para dar lugar à desconstrução do que é escrito em 140 caracteres (e discursado para simpatizantes), e abrir espaço para reportar fatos e atos políticos por trás das aparências discursivas. Apuração volta a ter peso máximo e poder decisivo na hora de narrar e publicar acontecimentos. O jornalismo declaratório está morrendo! Não será mais possível usá-lo sem perder a credibilidade. Pelo menos é por onde caminha a cobertura presidencial norte-americana até o momento.

Um exemplo dessa desconstrução do discurso de aparências é o acordo com uma empresa de ar-condicionado para salvar mil empregos de serem transferidos para o México. O fato é que os empregos salvos estão atrelados a US$ 7 milhões em incentivos fiscais a custa dos impostos de contribuintes do estado de Indiana no qual o governador é o vice-presidente eleito. Tudo bem casado, como a mão e a luva, para evidenciar que o novo homem no poder é mesmo forte e faz acontecer.

Credit: Nike Anderson, Cartoonist Group

Credit: Nike Anderson, Cartoonist Group

Além de se posicionarem e fincar os pés nos fundamentos da profissão, os jornalistas norte-americanos começam a se preocupar com os sucessivos e abusivos conflitos de interesse não somente entre os negócios globais da indústria do presidente eleito e as relações com nações, governos e interesses comerciais do país Estados Unidos, mas com as coisas imiscuídas entre o mundo do governo e o mundo dos investidores e bilionários que vão ocupar postos chaves na administração pública. Inclusive, com os familiares que vão ter um pé no governo e um pé nos negócios, simultaneamente.

Alguns jornalistas em entrevistas diversas comentam que 90% do que o presidente eleito diz é mentira e que fazer “fact check” todo o tempo já não funciona para a cobertura, ainda que tenha servido durante a campanha eleitoral. Estudos acadêmicos de análise comparada vão aparecer aos montes, estou certa, pois já é clara a diferença de tom e de conteúdo com que a imprensa cobriu o candidato em relação a como está cobrindo o período de transição. E muito será diferente a cobertura da presidência a partir de 20 de janeiro de 2017.

Alguns exemplos já estão aí como evidências. What do we do e The Future of the Free Press são dois exemplos veiculados em emissoras públicas. O ponto central da discussão é não tornar normal o que é anormal e distorcido. Os jornalistas falam do valor de apurar fatos, e abordar contextos, correlações e associações.

“Não é possível normalizar […] devemos fazer o melhor para examinar minuciosamente e apontar responsabilidades.”
Margaret Sullivan, colunista de mídia do The Washington Post

Aprendizagem – Se ainda estivesse em sala aula, reuniria os alunos para discutir criticamente a profecia que se torna realidade – a internet que rompe com a produção centralizada e a difusão vertical. A plataforma de serviço de microblogue Twitter, que estava quase falida há um ano, hoje, é o ícone da comunicação planetária. Com twitters, o presidente eleito da nação de maior PIB do mundo fala diretamente para todos, sem filtros, sem gatekeepers, em escala global, como o dono da agenda pública. Se de um lado impõe novos desafios ao Jornalismo, de outro é hora de rever O Grande Ditador e as cenas em que Charles Chaplin brinca com o mundo!

Quando as novas velhas tecnologias surgiram e se consolidaram, havia um ar pesado circulando em volta do Jornalismo e seus fundamentos e um questionamento sobre sua sobrevivência. O Jornalismo está vivo, muito vivo, e continua a ter como função ajudar a nós cidadãos a fazer sentido do cotidiano e do mundo que vivemos.

A produção de informação qualificada volta como menina dos olhos e se mostra diferenciada da produção de conteúdo. Estamos em tempos de pós-verdade (post-truth), segundo o Dicionário Oxford, que a escolheu como palavra do ano de 2016. Segundo o Dicionário, pós-verdade é um adjetivo definido como relating to or denoting circumstances in which objective facts are less influential in shaping public opinion than appeals to emotion and personal belief  (o que está relacionado ou denota circunstancias nas quais fatos objetivos são menos influenciadores na formação da opinião pública do que apelos emocionais e crenças pessoais).

E haja twitter! Mas também o ensaio da jornalista de Política Susan Glasser, que traz uma análise e uma reflexão sobre o Jornalismo nas eleições de 2016 nos Estados Unidos.