Menos vulnerável! Primeira dose contra covid-19

Eram meio-dia e trinta quando recebi a primeira dose da vacina contra covid-19 no drive-thru do Parque da Cidade, acompanhada de minha sobrinha. Enquanto a profissional de saúde aplicava a vacina, eu me emocionava. Os olhos cheios d’água eram os mesmos que eu tive quando assisti, com orgulho, a mulher, negra, enfermeira Mônica Callazans, ser a primeira vacinada brasileira no domingo, dia 17 de janeiro de 2021. Ali, naquele momento, com os olhos e a emoção grudados na tela, tive a certeza de que meu dia chegaria. E chegou, em 25 de abril!

Pena que não chegou para muitos, como para minha amiga Beth Brandão, que regulava de idade comigo, e faleceu no dia 7 de abril de covid-19. Beth é uma dentre as mais de 385 mil pessoas que perderam a vida por conta da pandemia e do vírus Sars-CoV-2, que estando presente em gotículas de saliva, quando falo, espirro, tusso ou pigarreio, se espalha e contamina outros à minha volta. Por isso, o uso de máscara é tão fundamental como barreira protetiva contra risco de contágio. Desde que a segunda onda da pandemia se instalou, no Distrito Federal, entre fevereiro e março deste ano, uso duas máscaras. 

Ter ido tomar a minha primeira dose, neste domingo, foi planejado desde a quinta-feira, quando a secretaria de Saúde do Governo do Distrito Federal (GDF) anunciou que recebera doses para começar a vacinar a faixa etária de 62-63 anos a partir de sexta, dia 23. Convidei minha sobrinha para compartilhar comigo, ao vivo e a cores, a experiência e tirar fotos. A operação para vacinar no Parque da Cidade, que vivenciamos, é digna de país organizado e que tem história de alto desempenho para vacinação em massa. Em parceria com o Laboratório Sabin, diversos profissionais de saúde foram alocados para trabalhar no circuito de triagem e orientação.

drive thru vacinacao parte dose 1Tinha muito carro, e ainda assim nossa espera foi de apenas 45 minutos, considerando que este posto do Parque estava vacinando primeira e segunda doses para profissionais de saúde, segunda dose para idosos com imunização nos dois tipos de vacinas e idosos para a primeira dose. Num esquema fordista, foram formadas quatro linhas de drive-thru e estabelecidos quatro pontos de orientação.

No primeiro controle, recebi uma ficha para preencher com meus dados; no segundo, fui orientada sobre qual fila de carro eu deveria seguir para chegar à tenda correta; no terceiro, fui perguntada se tinha qualquer sintoma, se havia tomado vacina de gripe nos últimos trinta dias e se podia mostrar minha identidade; no quarto, recebi o cartão de vacina com meu documento de volta, enfatizando o dia de retorno. Ali mesmo, com uma diferença de 2 metros, desci do carro para receber a primeira dose da Oxford-AstraZeneca. 

Meu coração bateu forte, voz embargada e lágrimas nos olhos! A profissional de saúde que me atendeu fazia o procedimento padrão me mostrando a seringa descartável, o frasco da vacina com líquido dentro e depois a seringa vazia. Quantas vezes, ela não terá feito isso, fico me perguntando?! Assim que entrei de volta no carro, ouvi: e aí, tia, doeu? Não, mas a agulha fina entrando na pele incomoda, respondi, trazendo de volta minha consciência para o presente, dispersando minha emoção. 

Cartao vacinacao primeira dose covid19

 

Uma coisa não foi possível nessa minha trajetória de resguardo, ficando em casa em isolamento, desde março de 2020, e só saindo para o estritamente necessário e com garrafinha de álcool em gel no bolso. Minha primeira dose não foi a  Coronavac, do Instituto Butantã, a qual eu gostaria de ter tomado, imitando a enfermeira Mônica, xará por acaso. Queria ter tomado a vacina do Butantã não só por conta do prazo para a segunda dose e a completa imunização ser mais curto, 2 a 3 semanas, mas também porque queria valorizar o esforço do Instituto de ter sido o primeiro a ter um imunizante fabricado no Brasil.

Minha primeira dose é a Covishield, conhecida por AstraZeneca, que é o nome da empresa que desenvolveu o imunizante com a Universidade de Oxford (Inglaterra). Minha segunda dose só será aplicada daqui a 3 meses, no dia 23 de julho. Até lá, meu corpo, entre os 22 e os 90 dias após a aplicação, poderá contar com 76% de eficácia da vacina. Essa imunização diminui muito, muito, a possibilidade de ser intubada e morrer de covid.

Ai que alívio!

Quando receber a segunda dose, a eficácia sobre para 82,4% e para 100% para os casos mais graves, isto é, prevenção contra internação hospitalar. Alívio também é saber que a AstraZeneca, que circula no meu corpo, também reduz a transmissão do vírus em 67% após a primeira dose. 

Cheguei em casa e fiz tudo igual. Tirei sapato na entrada, lavei mãos e óculos com água e sabão, higienizei com álcool bolsa, carteira e celular, coloquei roupa para lavar, tomei banho e grudei o cartão com a data do retorno com imã no armário do escritório. Uma coisa, porém, mudou! Meu sentimento interior de preservação à vida e de menor vulnerabilidade diante de um mundo que se tornou hostil e que não dá trégua de que vai ficar diferente antes de 2023. Mudou também porque pude dar um beijo, mesmo que com máscara, em minha mãe de 85 anos já imunizada, desde fevereiro, com as duas doses Coronavac. Um gesto de afeto de retorno à vida de todo o dia!

Aprendizagem por Projeto – relato de experiência

Dia 11 de março de 2021, estava eu lá em live divulgando o relato de experiência, realizado junto com a professora e advogada Luciana Musse. O relato é o Capítulo 5 do livro A Reinvenção do Ensino Jurídico – métodos para a qualidade das aulas remotas, que aborda o emprego da metodologia Aprendizagem por Projeto durante o primeiro semestre da pandemia de covid-19 nas três turmas de primeiro semestre de Direito.

Crédito: Captura Tela/Luan Correa

Luciana e eu oportunizamos aos alunos e alunas a experiência de entrevistar profissionais da área do Direito.

O resultado de nosso trabalho mostra que a experiência, segundo os próprios estudantes, (i) contribuiu para inspiração e enriquericemento pessoal, (ii) permitiu conhecer a profissão e a realidade de profissionais de Direito e (iii) promoveu uma aproximação com a carreira profissional.

Também revela que houve uma diversidade nas áreas e carreiras, como se pretendia com os objetivos do projeto, mas a predominância foram de entrevistas com profissionais que atuam nas carreiras tradicionais do Direito: advogados privados, juízes, promotores e delegados.

Luciana, no texto do Capítulo, ressalta, no entanto:

chama a atenção o número de mulheres entrevistadas e que atuam em profissiões jurídicas menos convencionais, como delegadas de polícia, oficial de justiça, assessora parlamentar, advogada militar e advogada popular.

A sondagem de opinião junto aos estudantes que participaram do projeto mostra que a metodologia teve efetividade e que houve satistifação ao participar da experiência. No entanto, como escrevemos:

Os efeitos da pandemia de covid-19 como o distanciamento social e as aulas remotas são os vetores que levam os respondentes a apontarem insatisfação e perda da qualidade da experiência com o Projeto. Para os alunos, não realizar a entrevista de modo presencial é uma limitação que compromete a qualidade da experiência de conhecer um profissional de Direito de uma determinada área de atuação e poder com ele interagir. Também é apontado como limitador a pouca familiaridade com gravação e a edição de uma entrevista.

O nosso Capítulo 5 está disponibilizado no plataforma Academia.edu, com o objetivo contribuir para experiências com a metodologia Aprendizagem por Projeto.

O livro (A Reinvenção do Ensino Jurídico) é organizado pelo Prof. Nitish Monebhurrun, Doutro em International Law pela Sorbonne Law School (Paris), e atualmente professor de Direito no Centro Universitário de Brasília (CEUB). A brilhante organização de Nitish permitiu que o livro aglutinasse 14 relatos. Relatos de professores de diversos estados do Brasil que utilizaram as mais diversas abordagens para chegarem perto dos estudantes num momento tão delicado da história do ensino (o primeiro semestre da pandemia), relatos de estudantes de Direito que vivenciaram diversas metodologias e relatos de experiências internacionais: Índia, Kuwait, Argentina e Reino Unido. O livro é da Editora Processo e pode ser adquirido em dois canais de venda: Editora Processo e Catalivros.

Crédito: Captura de Tela/Blogspot

Os direitos autorais, como anunciado no dia do lançamento, serão utilizados para apoiar o Projeto Leitura no Parque do Núcleo de Educação Ambiental do Parque Nacional de Brasília (NEA/PNB).

Leitura no Parque (foto) busca incentivar a leitura por meio do contato direto com a natureza, como parte do processo da educação ambiental, despertando o interesse pela continuidade de iniciativas  socioambientais no âmbito das escolas. O Leitura no Parque atende, anualmente, cerca de 800 estudantes e professores(as) de mais de 20 escolas do Distrito Federal e Entorno.

No evento de lançamento, os autores contam como foi produzir seus capítulos e os aspectos que mais marcaram esse momento de reinvenção, que levou professores a se adaptarem, no caso do CEUB, em menos de uma semana, para continuarem a ministrar as aulas e a contribuir com a formação acadêmica dos estudantes.

O Prof. Paulo Carvalho destacou, durante o lançamento, que este é momento histórico também porque traz à tona o encontro, no ensino jurídico, das gerações nativos digitais e imigrantes digitais, colocando a ambas o desafio da linguagem e da compreensão. Paulo conta que usou uma playlist criada a partir da pergunta que fez aos estudantes: se você pudesse levar apenas uma música para uma ilha deserta, qual seria? Com a playlist em mãos, Paulo colocava uma música a cada aula como ambientação para iniciar os estudos.

Fiquei motivada e com vontade de fazer o mesmo em minhas aulas. Quem sabe, vendo o vídeo de lançamento, você também não encontra algo que te inspire!